“Vale é a emoção que está dentro do meu coração”
Isto não tem preço

Carlos Roque, de 38 anos, mora em Campinas (SP), é um membro convidado do Brasil F1 Clube e nesta entrevista compartilha conosco a admiração pelo piloto e homem Ayrton Senna da Silva. Carlos guarda uma recordação incrível: o capacete utilizado por Ayrton Senna no treino de sábado do GP Brasil de 1994, quando o piloto conquistou a pole position. Foi a última corrida de Senna no Brasil. O fã conta que já recusou uma proposta de um empresário para trocar o capacete por um apartamento na zona sul de São Paulo, avaliado em cerca de R$ 100 mil.

Brasil F1 Clube - Como você conseguiu chegar até o Ayrton Senna em 1994?
Carlos Roque - Um tempo antes do GP Brasil, eu já comecei a aloprar um amigo da minha família que é fotógrafo no jornal Correio Popular para que ele me emprestasse sua credencial no sábado. Ele era um dos jornalistas que cobriria o GP, mas ele só iria no dia da prova. Ouvi a seguinte frase: "Você deve estar bem louco da cabeça não é mesmo?" Pois na visão dele se me pegassem com credencial alheia, eu seria preso e ele idem por falsidade ideológica, já que a credencial naquela época não tinha foto.

Mas ele liberou a credencial?
Sim, mas me fez prometer que se não fosse possível entrar, eu não forçaria a barra. Apesar de achar que eu entraria lá nem que fosse voando! Fiz tanta chantagem emocional nele que acabou cedendo. Imagina que eu usei até a minha mãe pra falar com ele, com o argumento de que nem comendo direito por causa da minha idéia. Convencido, ele combinou comigo que eu devolveria a credencial no domingo de manhã para que pudesse cobrir o GP.

E qual foi sua reação quando viu Ayrton Senna?
Lá estava eu fotografando os boxes com minha humilde Canon de pilha no meio de vários repórteres com câmeras maravilhosas. O Senna entrou nos boxes e ficou vendo os tempos dos pilotos no monitor. Ficou lá parado dentro do carro caso precisasse sair para dar outra volta rápida, apesar de já ter feito um excelente tempo.Quando percebeu que ninguém o alcançaria, o Magic Senna tirou o cinto de segurança e foi saindo da Williams. Sem perceber que o funcionário que segurava o monitor de tempos estava atrás dele, Senna levantou e bateu o capacete no aparelho. Ele saiu do carro, tirou o capacete (que havia feito a pole), tirou a bala clava, as luvas e as jogou dentro do seu Williams e terminou de ver os segundos finais do treino pela TV do box. Antes disso o capacete que fora acertado no monitor. Fez um sinal de negativo característico (com a mão e o polegar pra baixo) e disse algo que fez um integrante da equipe levar o capacete para uma bancada.

E como você conseguiu pegar o capacete?
Depois que ele saiu do carro, foi uma zona total. Todo mundo queria uma palavra dele depois da pole, mas a fita amarela e preta limitava da ação dos jornalistas do mundo todo. Ele festejou com a equipe primeiro e depois veio atender aos jornalistas e seguir para a coletiva de imprensa. Quando Senna ia saindo do boxe, eu o abordei e virei a credencial para trás, ficando só o cordão no meu pescoço e a plaquinha nas minhas costas. Eu disse: "Senna, aquele capacete... você não o quer mais? Você não quer jogar no lixo, não? Perguntei isso sorrindo para ele em tom irônico, pronto para ouvir um sonoro não!

Então o que ele te respondeu?
Ele me disse: "Você está louco? Como vai sair com um capacete daqui? Eu respondi: "Ah...sei lá... está vendo essa bolsa? (Eu carregava uma bolsa com binóculo, máquina fotográfica, capa de chuva etc) Eu jogo tudo isso fora e coloco ele aqui!" Falei super entusiasmado só pelo fato de não ter ouvido um não logo de cara ou alguma desculpa qualquer. Foi quando ele disse: "Nãaaaaaaaoooooo...isso não está certo...e foi entrando novamente no boxe".

Você achou neste momento que ele não iria te dar o capacete?
Claro. Me aborreci demais e pensei que ele ia sair pela porta lá dos fundos do boxe e eu não conseguiria mais falar com ele. De repente, ele voltou com uma bolsa preta na mão de lá de dentro do boxe e me entregou e foi logo dizendo que ele estava atrasado para a coletiva e saiu andando. Eu simplesmente não havia nem bem me recuperado do choque anterior e já logo tive outro. Então travei! Minha boca não abria direito de emoção para falar com ele porque eu queria agradecer. Na verdade, eu sabia direito o que de fato havia no interior da bolsa, pois na minha santa ignorância daquela época eu não sabia que capacetes eram transportados em bolsas felpudas com zíper como aquela que ele me deu. Paguei o maior mico da minha vida ao tentar abrir a bolsa ainda andando e tentando falar com ele, pelo menos para desejar sorte ou mesmo agradecer. Neste momento, minha máquina acabou caindo no chão e quebrou. Fiquei sem nenhuma foto do Senna dentro do boxe.

E como conseguiu sair sem ser visto com aquela bolsa?
Comecei a tremer quando abrir a bolsa e vi aquele capacete amarelo. Pensei: "Eu tenho de ir embora daqui imediatamente pois algumas pessoas me olhavam e comentavam qualquer coisa que eu não sei o que era, mas com certeza, alguns viram o que aconteceu". Eu fechei as bolsas e sumi dali. Peguei um taxi até a Rodovia Anhanguera e peguei um ônibus até Campinas para minha casa. Quando cheguei, liguei pro meu amigo repórter do Correio Popular. Falei que eu iria na casa dele devolver a credencial. Ele não entendeu absolutamente nada, pois meu trato com ele era de devolver no domingo pela manhã assim que ele chegasse no autódromo. Contei toda essa história pra ele. Ele ficou louco! Queria vender a peça e dividir meio a meio!

E você concordou?
Deu dei a maior gargalhada da minha vida. Disse que ele estava louco e que não venderia o capacete por dinheiro algum desta vida. Até já me ofereceram um apartamento de R$ 100 mil pela troca e eu não topei. E ele argumentou que se não fosse a credencial dele, eu não teria conseguido e eu disse que se não fosse a minha audácia e cara-de-pau, credencial nenhuma adiantaria. Voltei para São Paulo no próprio sábado à noite deixando obviamente o capacete guardado na minha casa em Campinas.

O capacete ficou muito estragado?
Imagina! Ele reprovou o capacete porque na parte de trás onde ele bateu no monitor fez uma marquinha de uns 3 cm na pintura! É mole? O capacete é um Bell assim como a bolsa. Fui entender muito tempo depois que Senna foi buscar a bolsa porque se preocupou com a minha segurança. Imagina eu andando com um capacete igualzinho ao do Senna na mão dentro dos boxes e mesmo fora dali. Eu sempre achei que o pensamento dele pudesse ter sido este. Pode até ser que eu esteja enganado mas nada me faz pensar diferente. É por isso que eu sempre disse: Ayrton Senna era o cara! Ele é o meu ídolo!



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